"Um dia,
lá para o fim do futuro,
alguém escreverá sobre mim um poema,
e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino."

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol) —

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis

Compartilhe:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Furl
  • Ma.gnolia
  • Rec6
  • Reddit
  • Technorati
  • Facebook
  • Live
  • TwitThis
  • YahooMyWeb
  • Google
  • BlinkList
  • Linkter
  • Meneame
  • Netvouz
  • description
  • Smarking
  • Spurl

1 Comentário to “Cada Coisa A Seu Tempo”

  1. Lindissimo, cada coisa a seu tempo

    Catarina

Deixe seu Comentário