Meu querido Amigo:
H谩 tempos que lhe ando prometendo uma extensa carta. N茫o sei mesmo se, especificando, lhe n茫o falei numa carta de g茅nero psicol贸gico, a meu pr贸prio respeito. Em todo o caso, 茅 disso que se trata.
Eu ando h谩 muito 鈥 desde que lhe prometi esta carta 鈥 com vontade de lhe falar intimamente e fraternalmente do meu 芦caso禄, da natureza da crise ps铆quica que h谩 tempos venho atravessando. Apesar da minha reserva, eu sinto a necessidade de falar nisto a algu茅m, e n茫o pode ser a outro sen茫o a voc锚 鈥 isto porque s贸 voc锚, de entre todos quantos eu conhe莽o, possui de mim uma no莽茫o precisamente no n铆vel da minha realidade espiritual. D谩-se esta sua capacidade para me compreender porque voc锚 茅, como eu, fundamentalmente um esp铆rito religioso; e, dos que de perto literariamente me cercam, voc锚 sabe bem que (por superiores que sejam como artistas) como almas, propriamente, n茫o contam, n茫o tendo nenhum deles a consci锚ncia (que em mim 茅 quotidiana) da terr铆vel import芒ncia da Vida, essa consci锚ncia que nos impossibilita de fazer arte meramente pela arte, e sem a consci锚ncia de um dever a cumprir para com n贸s pr贸prios e para com a humanidade.
Nesta explica莽茫o aparentemente preliminar vai j谩 exposta uma grande parte do problema. N茫o sei como lho hei-de expor ordenadamente, de modo perfeitamente l煤cido. Mas, como isto 茅 uma carta, eu irei expondo conforme possa; e voc锚 ordenar谩, em seu esp铆rito, depois, os dispersos e alterados elementos.
A minha crise 茅 do g茅nero das grandes crises ps铆quicas, que s茫o sempre crises de incompatibilidade, quando n茫o com os outros, por certo com n贸s pr贸prios. A minha, agora, n茫o 茅 de incompatibilidade comigo pr贸prio; a minha, gradualmente adquirida, autodisciplina, tem conseguido unificar dentro de mim quantos divergentes elementos do meu car谩cter eram suscept铆veis de harmoniza莽茫o. Ainda tenho muito a empreender dentro do meu esp铆rito; disto ainda muito de uma unifica莽茫o como eu a quero. Mas, como disse, n茫o 茅 dessa banda que sopra o vento do meu desconsolo actual.
A crise de incompatibilidade com os outros - n茫o, entenda-se desde j谩, uma incompatibilidade violenta, como a que resultasse de diverg锚ncias declaradas, n铆tidas, de ambas as partes. Trata-se de outra cousa. A incompatibilidade 茅 sentida por mim, dentro de mim, e 茅 comigo que est谩 o peso todo da minha diverg锚ncia de aqueles que me cercam. O facto de eu estar agora vivendo s贸, por n茫o ter aqui fam铆lia pr贸xima (minha tia, em cuja casa eu estava, est谩 na Su铆莽a, onde foi ficar com a filha, que casou h谩 pouco com um rapaz estudante, pensionista do Estado) vem agravar este estado de esp铆rito, por me deixar a nu com a minha alma, sem afei莽玫es e interesses familiares pr贸ximos a desviar de mim a minha aten莽茫o.
Temos pois que vivo h谩 meses numa cont铆nua sensa莽茫o de incompatibilidade profunda com as criaturas que me cercam - mesmo com as pr贸ximas, amigos, liter谩rios 茅 claro, porque os outros n茫o s茫o indiv铆duos com quem eu tenha que poder ter intimidade espiritual e por isso como, em mat茅ria de rela莽玫es sociais, me dou bem com toda a gente, dou-me bem com eles.
Em ningu茅m que me cerca eu encontro uma atitude, para com a vida que bata certo com a minha 铆ntima sensibilidade, com as minhas aspira莽玫es e ambi莽玫es, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial do meu 铆ntimo ser espiritual. Encontro, sim, quem esteja de acordo com actividades liter谩rias que s茫o apenas dos arredores da minha sinceridade. E isso n茫o me basta. De modo que, 脿 minha sensibilidade cada vez mais profunda, e 脿 minha consci锚ncia cada vez maior da terr铆vel e religiosa miss茫o que todo o homem de g茅nio recebe de Deus com o seu g茅nio, tudo quanto 茅 futilidade liter谩ria, mera arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento 铆ntimo de uma evolu莽茫o cujos fins me s茫o ocultos, tenho vindo erguendo os meus prop贸sitos e as minhas ambi莽玫es cada vez mais 脿 altura daquelas qualidades que recebi. Ter uma ac莽茫o sobre a humanidade, contribuir com todo o poder do meu esfor莽o para a civiliza莽茫o v锚m-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida. E, assim, fazer arte parece-me cada vez mais importante cousa, mais terr铆vel miss茫o - dever a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador de civiliza莽茫o de toda a obra art铆stica. E por isso o meu pr贸prio conceito puramente est茅tico da arte subiu e dificultou-se; exijo agora de mim muita mais perfei莽茫o e elabora莽茫o cuidada. Fazer arte rapidamente, ainda que bem, parece-me pouco. Devo 脿 miss茫o que me sinto uma perfei莽茫o absoluta no realizado, uma seriedade integral no escrito.
Passou de mim a ambi莽茫o grosseira de brilhar por brilhar, e essa outra, grosseir铆ssima, e de um plebe铆smo art铆stico insuport谩vel, de querer 茅pater. N茫o me agarro j谩 脿 ideia do lan莽amento do Interseccionismo com ardor ou entusiasmo algum. 脡 um ponto que neste momento analiso e reanaliso a s贸s comigo. Mas, se decidir lan莽ar essa quase blague, ser谩 j谩, n茫o a quase blague que seria, mas outra cousa. N茫o publicarei o Manifesto 芦escandaloso禄. O outro 鈥 aquele dos gr谩ficos 鈥 talvez. A blague s贸 um momento, passageiramente, a um m贸rbido per铆odo transit贸rio, de grosseria (felizmente incaracter铆stica), me pode agradar ou atrair. Ser谩 talvez 煤til 鈥 penso 鈥 lan莽ar essa corrente como corrente, mas n茫o com fins meramente art铆sticos, mas, pensando esse acto a fundo, como uma s茅rie de ideias que urge atirar para a publicidade para que possam agir sobre o psiquismo nacional, que precisa trabalhado e percorrido em todas as direc莽玫es por novas correntes de ideias e emo莽玫es que nos arranquem 脿 nossa estagna莽茫o. Porque a ideia patri贸tica, sempre mais ou menos presente nos meus prop贸sitos, avulta agora em mim; e n茫o penso em fazer arte que n茫o medite faz锚-lo para erguer alto o nome portugu锚s atrav茅s do que eu consiga realizar. 脡 uma consequ锚ncia de encarar a s茅rio a arte e a vida. Outra atitude n茫o pode ter para com a sua pr贸pria no莽茫o do dever quem olha religiosamente para o espect谩culo triste e misterioso do Mundo.
Tenho-lhe explicado tudo isto muito mal. Quase que me tenta a ideia de rasgar esta carta onde, at茅, pouca justi莽a fiz a mim pr贸prio. Mas voc锚 deve compreender o que eu sinto, e, creio, regozijar comigo, atrav茅s da sua amizade, por esta minha evolu莽茫o ascendente dentro de mim.
Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras de sentir. Agora, tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu esp铆rito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civiliza莽茫o e o alargamento da consci锚ncia da humanidade. Oxal谩 me [n茫o] desvie disto o meu perigoso feitio demasiado multilateral, adapt谩vel a tudo, sempre alheio a si pr贸prio e sem nexo dentro de si.
Mantenho, 茅 claro, o meu prop贸sito de lan莽ar pseudonimamente a obra Caeiro-Reis-Campos. Isso 茅 toda uma literatura que eu criei e vivi, que 茅 sincera, porque 茅 sentida, e que constitui uma corrente com influ锚ncia poss铆vel, ben茅fica incontestavelmente, nas almas dos outros. O que eu chamo literatura insincera n茫o 茅 aquela an谩loga 脿 do Alberto Caeiro, do Ricardo Reis ou do 脕lvaro de Campos (o seu homem, este 煤ltimo, o da poesia sobre a tarde e a noite). Isso 茅 sentido na pessoa de outro; 茅 escrito dramaticamente, mas 茅 sincero (no mais grave sentido da palavra) como 茅 sincero o que diz o Rei Lear, que n茫o 茅 Shakespeare, mas uma cria莽茫o dele. Chamo insinceras 脿s cousas feitas para fazer pasmar, e 脿s cousas, tamb茅m - repare nisto, que 茅 importante - que n茫o cont锚m uma fundamental ideia metaf铆sica, isto 茅, por onde n茫o passa, ainda que como um vento, uma no莽茫o da gravidade e do mist茅rio da Vida. Por isso 茅 s茅rio tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, 脕lvaro de Campos. Em qualquer destes pus um profundo conceito da vida, diverso em todos tr锚s, mas em todos gravemente atento 脿 import芒ncia misteriosa de existir. E por isso n茫o s茫o s茅rios os Pa煤is, nem o seria o Manifesto interseccionista de que uma vez lhe li trechos desconexos. Em qualquer destas composi莽玫es a minha atitude para com o p煤blico 茅 a de um palha莽o. Hoje sinto-me afastado de achar gra莽a a esse g茅nero de atitude.
Que pouco l煤cido e expl铆cito tudo isto! Mas eu tenho que lhe escrever tudo rapidamente; 茅 hoje o dia 19 e eu n茫o quero deixar de conversar com o seu esp铆rito sobre estas cousas. Como j谩 disse, voc锚 茅 o 煤nico dos meus amigos que tem, a par daquela aprecia莽茫o das minhas qualidades que lhe permitir谩 n茫o julgar esta carta um documento de megal贸mano, a profunda religiosidade, e a convic莽茫o do doloroso enigma da Vida, para simpatizar comigo em tudo isto.
Escuso agora de lhe explicar o quanto esta atitude 鈥 que eu, ali谩s, n茫o revelo, por v谩rias raz玫es, desde a de ser ela uma cousa 铆ntima at茅 脿 de ser incompreens铆vel 脿s sensibilidades dos que me cercam - me incompatibiliza surdamente com os que est茫o em meu redor. N茫o 茅 uma incompatibilidade violenta, disse; mas 茅 uma impaci锚ncia para com todos quantos fazem arte para v谩rios fins inferiores, como quem brinca, ou como quem se diverte, ou como quem arranja uma sala com gosto 鈥 g茅nero de arte este que d谩 bem o que eu quero exprimir, porque n茫o tem Al茅m nem outro prop贸sito que o, por assim dizer, decorativamente art铆stico. E da铆 a minha 芦crise禄 toda. N茫o 茅 crise para eu me lamentar. 脡 a de se encontrar s贸 quem se adiantou de mais aos companheiros de viagem 鈥 desta viagem que os outros fazem para se distrair e acho t茫o grave, t茫o cheia de termos de pensar no seu fim, de reflectir no que diremos ao Desconhecido para cuja casa a nossa inconsci锚ncia guia os nossos passos… Viagem essa, meu querido Amigo, que 茅 entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores… e Deus, fim da estrada infinita, 脿 espera no sil锚ncio da Sua grandeza…
Bem ou mal 鈥 mal, por certo - expus-lhe tudo. Sinto-me contente por lhe ter falado assim, e porque sei que o seu esp铆rito acolhe com simpatia e amizade estas minhas tristezas de altura. Tudo isto, escuso dizer-lhe, 茅 segredo… De resto, a quem o poderia voc锚 contar? …
Termino, a tempo felizmente. Mande-me quando puder, cuidadosamente copiados dos originais, os in茅ditos de Antero de que me fala. Pode ser que, tendo-os aqui, seja conveniente public谩-los nalguma parte. Haver谩 autoriza莽茫o para isso ? 脡 bom saber-se.
Mando-lhe alguns versos meus… Leia-os e guarde-os para si… A seu Pai, se quiser, pode l锚-los, mas n茫o espalhe, porque s茫o in茅ditos. Amo especialmente a 煤ltima poesia, a da Ceifeira, onde consegui dar a nota pa煤lica em linguagem simples. Amo-me por ter escrito
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsci锚ncia,
E a consci锚ncia disso!…
e, enfim, essa poesia toda.
Tenho escrito mais, mas mando o que est谩 completo e 茅 mais f谩cil copiar. 脡 pena que v谩 tudo em letra de m谩quina, que torna a poesia pouco po茅tica, mas assim 茅 mais r谩pido e n铆tido.
Escreva-me sempre, meu caro C么rtes-Rodrigues. D锚 cumprimentos meus a seu Pai e receba um grande e fraterno abra莽o do seu
P.S. 鈥 Vi h谩 dias uma espl锚ndida composi莽茫o 鈥 芦um t煤mulo de Wagner禄 鈥 do Norberto Correia. Bela deveras. Voc锚 gostaria imenso de a conhecer.
F. P.
P.S.2 鈥 N茫o tenho tempo para reler esta carta. Naturalmente faltam palavras aqui e acol谩, dada a rapidez com que eu escrevi. E a letra em altura nenhuma ser谩 muito leg铆vel. Voc锚 desculpe





















Para al茅m desta h谩 mais um conjunto de cartas que Cortes Rodrigues entregou nos anos de 40 a Joel Serr茫o para ques as publicasse. Estas cartas s茫o muito importantes para o estudo da obra de Pessoa. H谩 cerca de 10 anos passei a pente fino a Biblioteca Ncional de Lisboa com o intuito de encontrar na”arca” de Pessoa, as cartas que C-Rodrigues lhe escreveu. S贸 encontrei um postal. Paci锚ncia, perdeu-se por茅m, muita informa莽茫o que nos ajudaria no entendimento destes dois poetas
Anabela
22nd dezembro, 2006
Anabela!!
Eu adoraria ler essas cartas, fico triste em saber que se perderam.
Bill
22nd dezembro, 2006