"Um dia,
lá para o fim do futuro,
alguém escreverá sobre mim um poema,
e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino."

Exmo. Senhor,

Fiquei algo surpreendido, ao folhear o “Natal Marcury”, e em especial a sua coluna, por ver quão mesquinha e servilmente o sarcasmo e a ironia são usados contra os russos, o seu exército e o seu Imperador. Sei muito bem que é da natureza do homem, quando faltam a cultura e a dignidade, rir-se da infelicidade e da desgraça, enquanto tocarem os outros mas de forma alguma o próprio. Mesmo onde alguma consideração existe para com os claros limites da tragédia e da comédia, e apenas essa consideração - sem outro sentimento ou pensamento - o riso reprime-se face àquelas coisas que ultrapassam os limites do ridículo.

Cada revés e cada derrota do exército ou armada russa foram de tal modo objecto de chacota entre nós que parece que não achamos nada mais divertido. Alguns almirantes russos, mesmo depois da sua morte ou captura, fizeram-nos explodir em apupos. O próprio czar, quando desencorajado pela revolução e pela guerra, e quando em grande sofrimento e dor por causa dos seus exércitos, parece ser tomado pelo povo britânico como brinquedo animado de grande valor.

A nós, ingleses, os mais egotistas de todos os homens, nunca ocorreu a idéia de que a infelicidade e a dor enobrecem, por mais desprezíveis e auto-infligidas que sejam. Uma mulher embriagada cambaleando pelas ruas é um espetáculo que causa pena. A mesma mulher, se cair desajeitadamente no seu estado de embriaguez, talvez seja um espetáculo divertido. Mas esta mesma mulher, por mais desajeitada e embriagada que esteja, quando chora a morte de um filho, não é uma criatura desprezível e ridícula, mas sim uma figura trágica, tão grande como os vossos Hamlets e os vossos King Lears.

Se me é permitido fazer mais uma consideração, gostaria de sublinhar que a pura vergonha deveria impedir-nos de rir das desgraças russas e de fazer piadas com elas. É bastante claro, creio, que um saudável divertimento deve ser alicerçado, ainda que não por malícia, numa alegria que venha do alívio, que sentimos agora, do medo de um distúrbio por parte dos indianos. A Rússia não ameaça, hoje, a nossa possessão oriental, e será por isso que rimos? Esta idéia é, certamente, demasiado óbvia; devia ter-nos ocorrido antes de rirmos - apesar da grande vergonha de rirmos.

Em resposta, embora breve, a estas ridicularias, envio-lhe três sonetos para os quais peço a mesma publicidade que foi dada aos escritores do outro lado.

No geral, lamento profundamente testemunhar tais provas de ignomínia e insensibilidade humanas. Não deveríamos, se fôssemos decentes, rir das desgraças dos outros; mas não conseguimos, ao que parece, impor a nós próprios decência. Contudo, se a infelicidade e a dor nos deliciam, e as desgraças dos nossos inimigos nos divertem, sejamos suficientemente nobres para não dizer nada e guardar para nós próprios a satisfação - de qualquer forma, não desatemos a rir e, muito menos, a apupar nervosamente aqueles cujos medos estão dissipados, pois não há nada mais baixo do que isso.

Muito Atentamente

Charles Robert Anon

Notas explicativas carta nº 1
Charles Robert Anon, Que assina esta carta, é uma personalidade literária criada por Fernando Pessoa, ainda na Ãfrica do Sul. Os seus escritos, poéticos, diarísticos e filosóficos, situam-se entre 1904 e 1906. É, no entanto, e compreende-se que assim seja, um “ser” ainda muito umbilicalmente ligado ao seu jovem criador, traduzindo muito das suas preocupações de adolescente. O nome escolhido, abreviatura de “anonimous”, remete-nos, também, para um estatuto de não-maioridade dentro do universo pessoano. Seria em breve substituído pela figura de Alexandre Search. Pessoa-Anon refere-se à guerra russo-japonesa que eclodiu em fevereiro de 1904, com um ataque surpresa do Japão à esquadra russa, em Porto Arthur. O tratado de paz viria a ser assinado em 5 de setembro de 1905. Fernando Pessoa - Correspondência 1905-1922 Editora Companhia Das Letras

Compartilhe:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Furl
  • Ma.gnolia
  • Rec6
  • Reddit
  • Technorati
  • Facebook
  • Live
  • TwitThis
  • YahooMyWeb
  • Google
  • BlinkList
  • Linkter
  • Meneame
  • Netvouz
  • description
  • Smarking
  • Spurl

Deixe seu Comentário