Na obra de Pessoa o amor surge como a grande impossibilidade, a morte como a grande obsessão.
Para Fernando Pessoa, a vida não existe , o que existe é a via e a transformação.
Encontra-se desde os tempos mais antigos uma simbólica da água que é criadora, fecundante, transformadora do ser e neste sentido voltada naturalmente para o bem.
A água primordial é apresentada como a “mãe que gera o céu e a terra, como uma totalidade ao mesmo tempo cósmica e divina”, em muitas cosmogonias arcaicas.
A meditação da água pode conduzir à meditação das origens e a uma ideia de Uno harmonioso, não dividido, positivo por assim dizer.
No entanto, em Fernando Pessoa, a meditação da água tem um carácter negativo, na medida em que não conduz a uma visão feliz, harmoniosa da vida, mas antes a uma imaginação da ausência, do vazio que prefigura a morte.
O simbolismo da água em Fernando Pessoa, modifica-se e é diferente do que tinha sido tradicionalmente para os Portugueses.
Paralelamente a Camões,Fernando Pessoa faz referência ao mar como fluir de amargura -Mar Português - Mensagem.
Ó mar salgado, quanto do teu sal!
São lágrimas de Portugal!
Mas essencialmente o mar, espelho do céu é o reflexo do além, do desconhecido - esta novidade de sensações (esta busca) tem para Pessoa um efeito semelhante ao da explosão do eu que também se encontra em Rimbaud - lugar de dissolução onde o real se desfaz e deixa de se ver, onde a identidade se perde fragmentada definitivamente.
Fernando Pessoa afirma muitas vezes que não sabe quem é, nem que alma tem.
” Não sei quem sou, que alma tenho(…), sou variamente outro do que um eu que não existe. Sinto-me múltiplo. Sou o quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas”.E continua: “Sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os (…) por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço. (Páginas Intímas e de Auto-Interpretação).
Esta ausência de um eu que se deseja uno, esta consciência de um eu em permanente mudança , que se interroga mas não se fixa, é a base do génio criador de Pessoa, bem como da angústia profunda que lhe mina a vida.
“O autor humano destes livros não conhece em si próprio personalidade nenhuma”.
Proclama-se escravo da sua multiplicidade.
Primeiro Alberto Caeiro, depois Ricardo Reis e Álvaro de Campos- Pessoa não quer reconhecer entre eles qualquer identidade e muito menos entre eles e si próprio.
Contudo, a identidade existe e o simbolismo da água nestes poetas e nos seus poemas permite descobri-la - através da leitura dos poemas vem ao de cima uma identidade profunda em que se reconhece a identidade que quem os escreveu.
A água, nos poemas dos heterónimos e no de Fernando Pessoa ele mesmo, traz sempre consigo imagens de um eu que se sente morto.
Em Caeiro as coisas não têm sentido, têm apenas existência - o movimento interior do poeta, embora tranquilo, não o conduz à unidade, mas à diversidade e fragmentação.
Em Ricardo Reis, tal como o seu Mestre Caeiro, a experiência da água é pacífica, sem a angústia que se detecta nos poemas de Fernando Pessoa ou de Alvaro de Campos; no entanto, a ausência, o vazio, enquanto participação no ser, essência e existência.
Não viver, participando, mas seguir como espectador tranquilo.A imobilidade, a não- integração, a contemplação puramente exterior - a alma, em suma- é também apreendida na água dos “rios calmos”.
A água na poesia de Ricardo Reis, apaga todo o desejo de aniquilamento, manifesta-se de modo muito mais intenso - a sua linguagem não é contida como a dos outros heterónimos, explode numa torrente de sensações que o conduzem em direcção ao ponto mais exterior de si mesmo, onde se perde. A noite exerce um grande fascínio neste poeta.
O amor desencadeia, ainda mais do que a noite um precurso psíquico dissolvente do qual é sempre difícil, senão impossível recuperar-se - Ode Marítima, dá imagens de morte antegozada, aniquilação,consciência, e sem controlo.Morte é Mar. Não existe a totalidade restaurada, não há ufposição do cosmos, a partir de um caos inicial ou iniciático.
Para Alvaro Campos, a água é sempre dissolvente e só confirma o vazio, a total falta de sentido da existência.
O simbolismo geral da água como elemento negativo é uma constante na obra do poeta.
A água é para ele o reflexo de um vazio.
O Simbolismo cósmico do Mar
A poesia de Fernando Pessoa apela constantemente a um elemento líquido - a água.
Chamam por mim as águas
Chamam por mim os mares
(Alvaro de Campos)
Jacinto Prado Coelho afirma que “o tema do fluir do tempo, expresso normalmente pelo símbolo do rio, é comum a Caeiro, Álvaro de Campos e Fernando Pessoa. 1
Esta temática é também uma constante noutros poetas.
Na obra de Fernando Pessoa, aparecem freqüentemente, os rios que trazem a marca da consciência, da razão, da vida.
“O pensamento de Pessoa, com sua sucessão constante de juízos, tem a fluência e a profundidade do rio com que ele o identifica, no subterrâneo de que se desconhecem a foz e a nascente (Canc.71), mas que no seu curso traz vozes de tempos antigos e que vai desembocar num além que o poeta perde”. 2
Projeta-se, multiplicando-se, através da realização de tudo no mar - é um projecção ao nível cósmico,centralizando o seu credo futurista no mar.
A fluidez do devir identifica-se com a dinâmica do mar - a violência e a cólera, a calma e a serenidade, correspondem ao seu querer inconsciente .
O mar encerra um profundo sentido mítico,numa busca de Absoluto - é um mar-arquétipo - “O Grande Cais Anterior, eterno e divino (Campos).
Dos quatro elementos naturais da filosofia clássica, a água é aquele que o poeta vai eleger para a definição do contingente da vida e do Absoluto dos sonhos.
O mar é o elemento obscuro, onde o poeta dissolve a realização humana: “uma das faces da pirâmide da poética do mar é preenchida exactamente pela ideia de travessia que o homem empreende entre o nascer e o morrer”. 3
A água, como categoria vital, é o ponto de passagem para o estado anterior, de graça, no ventre materno, transcendendo-o, limitando-o e conduzindo-o no tempo.
A água assume uma função duplamente vital: é por um lado um símbolo materno essencial à natureza e à vida, e por outro lado é o embrião humano de onde toda a vida saiu - é um lugar cósmico, anónimo. Jung vê nele o símbolo do “inconsciente colectivo “aquilo que para Pessoa “é o Cais absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado” (Campos) ou o “Porto de todos os portos” (Canc.)
A água,como afirma Bachelard ” é um símbolo materno,pelo seu movimento ritmico,que embala, que sentimentalmente nos transporta para as origens”,para as estruturas arcaicas pré-uterinas.
O mar é, como símbolo de fluidez e força, violência e ternura, o dilema constante da alma,que transparece em toda a poesia pessoana - o eterno dilema entre o inconsciente , vivido e experimentado e se reverte em espectáculo inconsciente.
A Mulher
Fernando Pessoa procura na mulher que ama ” a outra ” (1935- “A outra”) - através da mulher o que deseja é outra coisa. Nas Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação assume que sempre preferiu ser amado a amar - revela uma passividade face à impossibilidade de amar. Quer a mulher para o sonho e não para o amor.
O amor oprime e ele deseja ser livre.
Na Ode Marítima, há um percurso das imagens do mar às da mulher subjugada pela violência - desejo do mar, desejo da morte, desejo da mulher (a mulher que ele sonha é uma mulher a destruir).
Os dados simbólicos que a água, a morte, a mulher inexistente nos fornecem são mais fáceis de compreender à luz de alguns dados biográficos.
Em Pessoa tudo é pulsão das águas maternas, a obcessão da águas originais, que são as da mãe.
Assim se explica a impossibilidade de amar normalmente uma mulher, a necessidade de voltar a recuperar o mundo de infância e o estado pré-natal de que nos fala em Anamésis - é um percurso regressivo.
Da sua pluralidade poética, encontra Pessoa inúmeras outras imagens e metáforas.
Como metáforas, aliás, se apresentam os próprios heterónimos.
Eu, que tantas vezes me sinto tão real
como uma metáfora
A Emoção ontológica da Noite
O ar é, como símbolo, o elemento material fundamental para a concretização do destino de ascensão espiritual
O ar, (etéreo e desprovido de forma) significa a libertação do mundo e si próprio, num processo de catarse (purga) que facilmente se encontra na fluência da linguagem poética , mas que é sobretudo visível na noite.
“Noite é das palavras mágicas que o léxico português contém não só pelo poder sugestivo da sua componente fónica, a que a dolência do ditongo oi não é alheia, como também pela ambivalência sui generis da sua carga semântica. 1
Na poética de Fernando Pessoa os mais altos momentos de lirismo são aqueles em que o poeta canta a noite pela elevação, pela fusão subjectiva (irreal) e objectiva (real): a noite é o ” ponto de partida para o sonho” , para a emoção poética, para o “acordar do pensamento,para a esperança”. Noite enigma (Mensagem, 21,41), mas noite libertação.
É pela noite que ultrapassa o real e em Alvaro de Campos atinge a maior plenitude na objectivação deste mito.
“Vem Noite, antiquíssima e idêntica
Noite Rainha, nascida destronada
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito
Segundo Isabel Vaz, “sugere a imagem da noite pacificadora e protectora, identificando-a com o manto de Nossa Senhora, capaz de abarcar o Infinito. 2
A noite realiza o unidade em que o real e o irreal não se distinguem, porque tudo perde as arestas e as cores”.
Sendo o espaço privilegiado do sonho, oferece um mundo onírico propício à transcendência.
Se por um lado a noite se reveste de um espaço de plenitude e um sentimento de vida (em função de uma necessidade inconsciente),ela é também, como a água um princípio de morte -nascimento e morte; vida e destruição - ser e não -ser.
“To be or not to be- This is the question”
A noite é braço tutelar ,que protege na ausência de movimento : “Mão suave e antiga das emoções sem gesto “(Camp 442)
Pela projecção no ar infinito , onde se apagam as formas ,a noite como metáfora de desmaterialização , anula a dimensão da matéria e proporciona uma sublimação intíma..
Na sua linguagem imagética, transubstancia-se e liberta-se pela atitude imaginária que o conduz a um universo liríco , gradualmente, num processo vertical de libertação.
O ar, porque materializa os outros elementos fluidos, é juntamente com a noite (quase confunde como o seu ser), o símbolo da libertação da matéria , para a estância do infinito, do Nada.
“Não estou pensando em nada e isso é-me agradável como o ar da noite” (Camp.505) - é o movimento inconcreto de uma “alma vazia/que paira na orla do ar”, é a forma de vivenciar a realidade do seu sujeito, como extensão subjectiva.
Através da poesia da noite,as imagens são os caminhos de sonho vivido em espírito, descrevendo trajectórias de movimentos da alma à alma inteira, num perpétuo movimento de exaltações líricas.
“E neste estado de espírito encontro-me a compôr um soneto - acabei-o uns passos antes de chegar ao portão de minha casa- , a compor um soneto de uma tristeze suave, calma, que parece escrito por um cufpúsculo de céu limpo. E o soneto não é só calmo, mas também mais ligado e conexo que algumas coisas que eu tenho escrito. O fenómeno curioso do desdobramento é cousa que habitualmente tenho, mas nunca o tinha sentido neste grau de intensidade”. 3
ABDICAÇÃO
Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho …Eu sou um Rei
Que voluntáriamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços .
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei ,
E meu ceptro e coroa - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas dum tinir tão fútil -
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a Realeza, corpo e alma,
E regressei à Noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia
A noite é aqui vista como um refúgio, como uma metamorfose de si.
Como diz Jorge de Sena ” A noite que V.poeticamente sentiu, como raríssimos poetas portugueses, com uma diversidade e uma profundidade que a solidão lhe ensinou , foi o seu grande refúgio”. 4
Texto retirado na www.ufp.pt





















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