"Um dia,
lá para o fim do futuro,
alguém escreverá sobre mim um poema,
e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino."

Não meu, não meu é quanto escrev
                A quem o devo?
De quem sou o arauto nado?
                Porque, enganado
Julguei ser meu o que era meu?
                Que outro mo deu?
Mas, seja como for, se a sorte
                For eu ser morte
De uma outra vida que em mim viv
                Eu, o que estive
Em ilusão toda esta vida
                Aparecida,
Sou grato Ao que do pó que sou
                Me levantou.
(E me fez nuvem um momento
                De pensamento).
(Ao de quem sou, erguido pó,
                Símbolo só.)

O. C., I v., Poesias, p. 152.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas - 09/11/1932

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