Deus-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em gênio e em desgraça,
As horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.
Pôs-me as mãos sobre o ombros, e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer-justiça são Seu nome
Dentro em mim a vibrar.
E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha, o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma!
Ataca, n° 3, 1934, p. 81.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas - 21/07/1913
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Ó naus felizes, que do mar vago
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto noturno mal —
Meu coração é um morto lago,
E Ã margem triste do lago morto
Sonha um castelo medieval…
E nesse, onde sonha, castelo triste,
Nem sabe saber a, de mãos formosas
Sem gesto ou cor, triste castelã
Que um porto além rumoroso existe,
Donde as naus negras e silenciosas
Se partem quando é no mar manhã…
Nem sequer sabe que há o, onde sonha,
Castelo triste… Seu ’spÃrito monge
Para nada externo é perto e real…
E enquanto ela assim se esquece, tristonha,
Regressam, velas no mar ao longe,
As naus ao porto medieval…
O. C., I v., Poesias, p. 208.
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A qualquer modo todo escuridão
Eu sou supremo. Sou o Cristo negro.
O que não crê, nem ama — o que só sabe
O mistério tornado carne —.
Há um orgulho atro que me diz
Que sou Deus inconscienciando-me
Para humano; sou mais real que o mundo.
Por isso odeio-lhe a existência enorme,
O seu amontoar de coisas vistas.
Como um santo devoto
Odeio o mundo, porque o que eu sou
E que não sei sentir que sou, conhece-o
Por não real e não ali.
Por isso odeio-o —
Seja eu o destruidor! Seja eu Deus ira!
Primeiro Fausto.
O. C., VI v., 1952, p. 85.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas
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Sou a Consciência em ódio ao inconsciente,
Sou um sÃmbolo incarnado em dor e ódio,
Pedaço de alma de possÃvel Deus
Arremessado para o mundo
Com a saudade pávida da pátria…
Ó sistema mentido do universo,
Estrelas nadas, sóis irreais,
Oh, com que ódio carnal e estonteante
Meu ser de desterrado vos odeia!
Eu sou o inferno. Sou o Cristo negro,
Pregado na cruz Ãgnea de mim mesmo.
Sou o saber que ignora,
Sua a insônia da dor e do pensar…
Primeiro Fausto.
O. C., VI v., 1952, p. 86.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas
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Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que [exprime] na alma que ousa,
E sempre nome, sempre linguagem,
O véu e capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o Eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Os deuses, porque os não vê,
Volta a meus braços, melhor esquece.
Que tudo só fingir que é.
Primeiro Fausto.
O. C., VI v., 1952, p. 80.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas
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Ah, tudo é sÃmbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria,
São outra coisa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo o que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
E o eco da outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo o que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento,
São sombras de mãos, cujos gestos são
A realidade desta ilusão.
Primeiro Fausto.
O. C., VI v., 1952, p. 76.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas
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Não meu, não meu é quanto escrev
A quem o devo?
De quem sou o arauto nado?
Porque, enganado
Julguei ser meu o que era meu?
Que outro mo deu?
Mas, seja como for, se a sorte
For eu ser morte
De uma outra vida que em mim viv
Eu, o que estive
Em ilusão toda esta vida
Aparecida,
Sou grato Ao que do pó que sou
Me levantou.
(E me fez nuvem um momento
De pensamento).
(Ao de quem sou, erguido pó,
SÃmbolo só.)
O. C., I v., Poesias, p. 152.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas - 09/11/1932
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Já estão em mim exaustas,
Deixando-me transido de terror,
Todas as formas de pensar [...]
O enigma do universo. Já cheguei
A conceber, como requinte extremo
Da exausta inteligência, que era Deus…
Já cheguei a aceitar como verdade
O que nos dão por ela, e a admitir
Uma realidade não real
Mas não sonhada, [como o] Deus Cristão.
… Falhados pensamentos e sistemas
Que, por falharem, só mais negro fazem
O poder horroroso que os transcende
A todos, [sim,] a todos.
Oh horror! Oh mistério! Oh existência!
Primeiro Fausto, O. C., VI v., 1952, p. 78.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas
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Paro à beira de mim e me debruço…
Abismo… E nesse abismo o Universo,
Com seu tempo e seu ’spaço, é um astro, e nesse
Alguns há, outros universos, outras
Formas do Ser com outros tempos, ’spaços
E outras vidas diversas desta vida…
O espÃrito é outra estrela… O Deus pensável
É um sol… E há mais Deuses, mais ’spÃritos
De outras essências de Realidade…
E eu precipito-me no abismo, e fico
Em mim… E nunca desço… E fecho os olhos
E sonho — e acordo para a Natureza…
Assim eu volto a mim e à Vida…
Deus a si próprio não se compreende.
Sua origem é mais divina que ele,
E ele não tem a origem que as palavras
Pensam fazer pensar…
O abstrato Ser [em sua] abstrata idéia
Apagou-se, e eu fiquei na noite eterna.
Eu e o Mistério — face a face…
Primeiro Fausto, O. C.,VI v., 1952, p. 83.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas - 06/11/1912
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Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei… Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruÃdo subitâneo
De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las…, misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados…
De vez em quando luze em minha mágoa,
Como um farol num mar desconhecido,
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água…
E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Ãguas divinas percorrendo o chão
De verdores unÃssonos e amigos,
E a idéia de uma Pátria anterior
A forma consciente do meu ser
Dói-me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.
Escuto-o… Ao longe, no meu vago tato
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a idéia de rio certo e abstrato…
E p’ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi-lo? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?
Não sei… Eu perco-o… E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e atual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa…
Cartas de F. P. a A. C. - R., p. 60.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas - 1914(?)
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