Rasteja mole pelos campos ermos
O vento sossegado.
Mais parece tremer de um tremor próprio,
Que do vento, o que é erva.
E se as nuvens no céu, brancas e altas,
Se movem, mais parecem
Que gira a terra rápida e elas passam,
Por muito altas, lentas.
Aqui neste sossego dilatado
Me esquecerei de tudo,
Nem hóspede será do que conheço
A vida que deslembro.
Assim meus dias seu decurso falso
Gozarão verdadeiro.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis
Arquivado em Odes De Ricardo Reis, Ricardo Reis | |
| Comentar »
Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescÃvel sempre.
Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Ãtropos a tesoura.
Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgÃaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.
E ele espera, contente quase e bebedor tranqüilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis
Arquivado em Odes De Ricardo Reis, Ricardo Reis | |
| 2 Comentários »
Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.
Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.
Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada ’spera
Tudo que vem é grato.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis
Arquivado em Odes De Ricardo Reis, Ricardo Reis | |
| Comentar »
Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis
Arquivado em Odes De Ricardo Reis, Ricardo Reis | |
| Comentar »
Quem diz ao dia, dura! e à treva, acaba!
E a si não diz, não digas!
Sentinelas absurdas, vigilamos,
Ãnscios dos contendentes.
Uns sob o frio, outros no ar brando, guardam
O posto e a insciência sua.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis
Arquivado em Odes De Ricardo Reis, Ricardo Reis | |
| Comentar »
Quão breve tempo é a mais longa vida
E a juventude nela! Ah!, Cloe, Cloe,
Se não amo nem bebo,
Nem sem querer não penso,
Pesa-me a lei inimplorável, dói-me
A hora invita, o tempo que não cessa,
E aos ouvidos me sobe
Dos juncos o ruÃdo
Na oculta margem onde os lÃrios frios
Da Ãnfera leiva crescem, e a corrente
Não sabe onde é o dia,
Sussurro gemebundo.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis
Arquivado em Odes De Ricardo Reis, Ricardo Reis | |
| Comentar »
Quanta tristeza e amargura afoga
Em confusão a ’streita vida!
Quanto Infortúnio mesquinho
Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anônimo, e entra
Na morte como em casa;
Ou o sábio que, perdido
Na ciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que ergue
Braços que se desfazem
A um céu inexistente.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis
Arquivado em Odes De Ricardo Reis, Ricardo Reis | |
| Comentar »
Quanto faças, supremamente faze.
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possÃvel,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis
Arquivado em Odes De Ricardo Reis, Ricardo Reis | |
| Comentar »
Quando, LÃdia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis
Arquivado em Odes De Ricardo Reis, Ricardo Reis | |
| 1 Comentário »
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis
Arquivado em Odes De Ricardo Reis, Ricardo Reis | |
| 1 Comentário »