"Um dia,
lá para o fim do futuro,
alguém escreverá sobre mim um poema,
e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino."

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         Ã€s vezes, sem que o espere ou deva esperá-lo, a sufocação do vulgar me toma a garganta e tenho a náusea física da voz e do gesto do chamado semelhante. A náusea física directa, sentida directamente no estômago e na cabeça, maravilha estúpida da sensibilidade desperta… Cada indivíduo que me fala, cada cara cujos olhos me fitam, afecta-me como um insulto ou como uma porcaria. Extravaso horror de tudo. Entonteço de me sentir senti-los.
         E acontece, quase sempre, nestes momentos de desolação estomacal, que há um homem, uma mulher, uma criança até, que se ergue diante de mim como um representante real da banalidade que me agonia. Não representante por uma emoção minha, subjectiva e pensada, mas por uma verdade objectiva, realmente conforme de fora com o que sinto de dentro que surge por magia analógica e me traz o exemplo para a regra que penso

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

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         Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.
         Todo o esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho morto.
         As tuas mãos são rolas presas. Os teus lábios são rolas mudas (que aos meus olhos vêm arrulhar).
         Todos os teus gestos são aves. És andorinha no abaixares-te, condor no olhares-me, águia nos teus êxtases de orgulhosa indiferente. É toda ranger de asas, como dos , a lagoa de eu te ver.
         Tu és toda alada, toda
         Chove, chove, chove…
         Chove constantemente, gemedoramente
         Meu corpo treme-me a alma de frio… Não um frio que há no espaço, mas um frio que há em ver a chuva …
         Todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz.

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

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         O prazer de nos elogiarmos a nós próprios…

         Paisagem de chuva

         Cheira-me a frio, a mágoa, a serem impossíveis todos os caminhos, a ideia de todos os ideais.
         As mulheres contemporâneas tais arranjos do seu porte e do seu vulto talham, que dão uma dolorosa impressão de efémeras e de insubstituíveis…
         Os seus e adereços tais as pintam e cobram, que mais decorativas se tornam do que carnalmente viventes. Frisas, painéis, quadros - não são, na realidade da vista, mais do que tanto…
         O mero voltear dum xaile para cima dos ombros usa hoje mais consciência à visão do gesto em quem o faz do que antigamente. Dantes o xaile era parte do traje; hoje é um detalhe resultante de intuições de puro gozo estético.
         Assim, nestes nossos dias, tão vívidos através de fazerem tudo arte, tudo arranca pétalas ao consciente e se integra em volubilidades de extático.
         Trânsfugas de quadros não feitos essas figuras femininas todas… Há por vezes detalhes a mais nelas… Certos perfis existem com exagerada nitidez. Brincam a irreais pelo excesso com que se separam, linhas puras, do ambiente fundo.

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

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