"Um dia,
lá para o fim do futuro,
alguém escreverá sobre mim um poema,
e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino."

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         Descobri que penso sempre, e atendo sempre, a duas coisas no mesmo tempo. Todos, suponho, serão um pouco assim. Há certas impressões tão vagas que só depois, porque nos lembramos delas, sabemos que as tivemos; dessas impressões, creio, se formará uma parte - a parte interna, talvez - da dupla atenção de todos os homens. Sucede comigo que têm igual relevo as duas realidades a que atendo. Nisto consiste a minha originalidade. Nisto, talvez, consiste a minha tragédia, e a comédia dela.
         Escrevo atentamente, curvado sobre o livro em que faço a lançamentos a história inútil de uma firma obscura; e ao mesmo tempo o meu pensamento segue, com igual atenção, a rota de um navio inexistente por paisagens de um oriente que não há. As duas coisas estão igualmente nítidas, igualmente visíveis perante mim: a folha onde escrevo com cuidado, nas linhas pautadas, os versos da epopeia comercial de Vasques e Cia, e o convés onde vejo com cuidado, um pouco ao lado da pauta alcatroada dos interstícios das tábuas, as cadeiras longas alinhadas, e as pernas saídas dos que sossegam na viagem.
         (Se eu for atropelado por uma bicicleta de criança, essa bicicleta de criança torna-se parte da minha história.)
         Intervém a saliência da casa de fumo; por isso só as pernas se veem.
         Avanço a pena para o tinteiro e da porta da casa de fumo - quase mesmo ao pé de onde sinto que estou - sai o vulto do desconhecido. Vira-me as costas e avança para os outros. O seu modo de andar é lento e as ancas não dizem muito. É inglês. Começo um outro lançamento. Tento ver por que ia enganado. É a débito e não a crédito da conta do Marques. (Vejo-o gordo, amável, piadista e, num momento, o navio desaparece.)

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

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         A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova.
Baldado esforço o teu se queres sentir outras coisas sem sentires de outra maneira, e sentires de outra maneira sem mudares de alma. Porque as coisas são como nós as sentimos - há quanto tempo sabes tu isto sem o saberes’? - e o único modo de haver coisas novas, de sentir coisas novas é haver novidade no senti-las.
         Muda de alma. Como? Descobre-o tu.
         Desde que nascemos até que morremos mudamos de alma lentamente, como do corpo. Arranja meio de tornar rápida essa mudança, como com certas doenças, ou certas convalescenças, rapidamente o corpo se nos muda.
         Não descer nunca a fazer conferências, para que não se julgue que temos opiniões, ou que descemos ao público para falar com ele. Se ele quiser, que nos leia.
         De mais a mais o conferenciador semelha actor - criatura que o bom artista despreza, moço de esquina da Arte.

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

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         Sonho triangular

         No meu sonho no convés estremeci - é que pela minha alma de Príncipe Longínquo passou um arrepio de presságio.
         Um silêncio ruidoso a ameaças invadia como uma brisa lívida a atmosfera visível da saleta.
         Tudo isto é haver um brilho excessivo a inquietá-lo no luar sobre o oceano que não embala já mas estremece; tornou-se evidente - e eu ainda os não ouvi - que há ciprestes ao pé do palácio do Príncipe.
         O gládio do primeiro relâmpago volteou vagamente no além… E cor de relâmpago o luar sobre o mar alto e tudo isto é ser ruínas já e passado afastado o meu palácio do príncipe que nunca fui…
         Com um ruído soturno e aproximando-se o navio entre as águas, a saleta escurece lividamente, e não morreu, não está preso algures, não sei o que [é] feito dele - do príncipe - que gélida coisa desconhecida lhe é o destino agora?…

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

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