"Um dia,
lá para o fim do futuro,
alguém escreverá sobre mim um poema,
e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino."

122 anos!

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Fernando Pessoa
13 de junho de 1888 / 13 de junho de 2010

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar pela vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

{Ãlvaro de Campos, Poemas}

122 anos, de letras e versos, de um vigor que prova-se mais forte, dia a dia, herança da última flor do Lácio.
Ao eterno Fernando Pessoa e suas almas… Parabéns.

121 anos!

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Fernando Pessoa
13 de junho de 1888 / 13 de junho de 2009

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar pela vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

{Ãlvaro de Campos, Poemas}

121 anos, de letras, versos e sonhos.
Ao eterno Fernando Pessoa e suas almas… Parabéns.

Feliz Natal

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Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

{Fernando Pessoa}

Feliz Natal para todos!

Saudades…

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Dia 30 de Novembro de 1935: Fernando Pessoa morre, aos 47 anos. Tempo suficiente para se tornar um dos maiores poetas de todos os tempo.
Tendo por língua materna «a última flor do Lácio», escreveu em inglês, que dominava igualmente bem, o seu último bilhete «I know not what tomorrow will bring.»

73 anos sem nosso grande poeta…

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
[...]

{Fernando Pessoa}

118

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         Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo ia toda a minha vida. Não é outra, pois, que a mãe, morto o filho, meses depois estar aí [?] e é a mesma. A grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses papéis. Tudo não importa e creio bem que houve quem visse a vida sem uma grande paciência para essa criança acordada e com grande desejo do sossego de quando ela, enfim, se tenha ido deitar.

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

120 anos!

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Fernando Pessoa
13 de junho de 1888 / 13 de junho de 2008

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar pela vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

{Ãlvaro de Campos, Poemas}

120 anos, de letras e versos, de um vigor que prova-se mais forte, dia a dia, herança da última flor do Lácio.
Ao eterno Fernando Pessoa e suas almas… Parabéns.

Hino A Pa

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De Mestre Therion
(Aleister Crowley)

Vibra do cio sutil da luz,
     Meu homem e afã!
Vem turbulento da noite a flux
     De Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem com Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim,
     A mim, a mim!
Vem com Apoio, nupcial na brisa
     (Pegureira e pitonisa),
Vem com Artêmis, leve e estranha,
E a coxa branca, Deus lindo, banha
Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
Manhã malhada da âmbrea fonte!
Mergulha o roxo da prece ardente
No ádito rubro, no laço quente,
A alma que aterra em olhos de azul
O ver errar teu capricho exul
No bosque enredo, nos nós que espalma
A árvore viva que é espírito e alma

E corpo e mente — do mar sem fim
     (La Pã! Iô Pã!),
Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
     Meu homem e afã!
Vem com trombeta estridente e fina
     Pela colina!
Vem com tambor a rufar à beira
     Da primavera!
Com frautas e avenas vem sem conto!
     Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me esforço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Aspire aguda, forte leão —
     Vem, está vazia
     Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
A espada corta o que ata e dói,
O’ Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
Dá-me o sinal do Olho Aberto,
E de coxa áspera o toque ereto,
E a palavra do Louco e do Secreto,
     O ‘ Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã!
Sou homem e afã:
Faze o teu querer sem vontade vã,

Deus grande! Meu Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
     Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
     Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã! A matado,
     Vou no corno levado
     Do Unicornado.
Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Sou teu, teu homem e teu afã,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
Carne em teu osso, flor na tua vara.
Com patas de aço os rochedos roço
De solstício severo a equinócio.
E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
     Na força de Pã.

IÔ Pã! Iô Pã Pã! Pã! Iô Pã!

Tradução
De Fernando Pessoa

Presença, v., nº.33, 1931.
Poesia por Fernando Pessoa atribuída a Aleister Crowley e por ele traduzida e publicada no intuito de mostrar o que era um verdadeiro “poema mágico”.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas

Demogorgon

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Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda.
Uma tristeza cheia de pavor esfria-me.
Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias
                                e dos movimentos.

        Não, não, isso não!
Tudo menos saber o que é o Mistério!
Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas,
        Não vos ergais nunca!
O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!

Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada!
A razão de haver ser, a razão de haver seres, de haver tudo,
Deve trazer uma loucura maior que os espaços
        Entre as almas e entre as estrelas.

Não, não, a verdade não! Deixai-me estas casas e esta gente;
Assim mesmo, sem mais nada, estas casas e esta gente…
Que abafo horrível e frio me toca em olhos fechados?
Não os quero abrir de viver! Ó Verdade, esquece-te de mim!

Ãlvaro de Campos
O. C., II v., p. 262.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas

A Morte

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A morte é a curva da estrada.
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

     A terra é feita de céu.
     A mentira não tem ninho.
     Nunca ninguém se perdeu.
     Tudo é verdade e caminho.

O. C., I, V, Poesias, p. 144.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas- 23/05/1932

Sombra Amada

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Longe da fama e das espadas,
Alheio às turbas ele dorme.
Em torno há claustros ou arcadas?
     Só a noite enorme.

Porque para ele, já virado
Para o lado onde está só Deus,
São mais que Sombra, e que Passado
     A terra e os céus.

Quem ele foi sabe-o a Sorte,
Sabe-o o Mistério e a sua lei.
A vida fê-lo herói, e a Morte
     O sagrou Rei!

No oculto para o nosso olhar,
No visível à nossa alma,
Inda sorri com o antigo ar
     De força calma.

E amanhã, quando queira a Sorte,
Quando findar a expiação,
Ressurrecto da falsa morte,
     Ele já não.

Mas a ânsia nossa que encarnara,
A alma de nós de que foi braço,
Tornará, nova forma clara,
     Ao tempo e ao espaço.

Ah, tenhamos mais fé que a esp’rança!
Mais vivo que nós somos, fita
Do Abismo onde não há mudança
     A terra aflita.

E se assim é; se, desde o Assombro
Aonde a Morte as vidas leva,
Vê, esta pátria, escombro a escombro,
     Cair na treva;

Se algum poder do que tivera
Sua alma, que não vemos, tem,
De longe ou perto — porque espera?
     Porque não vem?

Em nova forma ou novo alento,
Que alheio pulso ou alma tome,
Regresse como um pensamento,
     Alma de um nome.

Regresse sem que a gente o veja,
Regresse só que a gente o sinta —
Impulso, luz, visão que reja,
     E a alma pressinta!

Que nova luz virá raiar
Da noite em que jazemos vis?
Ó sombra amada, vem tornar
     A ânsia feliz.

Quem quer que sejas, lá no abismo
Onde a morte a vida conduz,
Sê para nós um misticismo
     A vaga luz

Com que a noite erma inda vazia
No frio alvor da antemanhã
Sente, da espr’anca que há no dia,
     Que não é vã.

E amanhã, quando houver a Hora,
Sendo Deus pago, Deus dirá
Nova palavra redentora
     Ao mal que há,

E um novo verbo ocidental
Encarnado em heroísmo e glória,
Traga por seu broquel real
     Tua memória!

Fragmentos do Poema
“A Memória do Presidente-Rei Sidônio Pais”
Ação, nº 4, 1920.
Fernando Pessoa - Poemas Ocultistas- 27/02/1920